A INFLUÊNCIA DA DIETA NA PREVENÇÂO DA PROGRESSÂO PARA O ESTÁGIO DA DOENÇA RENAL CRÔNICA DIALÍTICA
Por definição, é portador de doença renal crônica (DRC) qualquer adulto com idade maior ou igual a 18 anos que, por um período de três ou meses ou mais, apresente taxa de filtração glomerular (TFG) <60ml/min/1,73m2, e, alguma evidencia de lesão da estrutura renal (hematúria, albuminúria, ou alteração em exame de imagem renal).
Em todo o mundo, a DRC se tornou uma epidemia e um dos principais problemas de saúde publica. Estudos populacionais em diferentes países tem demonstrado prevalência de DRC de 7,2% em indivíduos acima de 30 anos de idade e de 23 a 36% em indivíduos acima de 64 anos. Como a doença é silenciosa e os sintomas somente se manifestam quando ja ocorreu uma grande perda da função renal, milhões de doentes desconhecem ser portadores de disfunção renal.
Independente da causa da DRC, a presença de obesidade, proteinúria, dislipidemia, tabagismo e sedentarismo acelera a progressão da doença renal para o estagio terminal. Pacientes que evoluem para DRC terminal (DRCT) necessitam de algum tipo de terapia renal substitutiva (TSR), sendo as modalidades disponíveis: a hemodiálise, a dialise peritoneal e o transplante renal.
Neste contexto, também a fim de evitar a progressão da doença renal crônica para a fase dialítica, as intervenções dietéticas vem ganhando um papel relevante.
A proteína, quando é consumida em excesso por doentes renais crônicos não dialíticos, é um componente que sabidamente aumenta pressão no glomérulo renal, levando a um estado do sobrecarga renal. Existem algumas evidências de que proteínas provenientes de alimentos de origem vegetal exercem um menor efeito sobre a filtração glomerular quando comparadas aquelas provenientes de alimentos de origem animal. De forma resumida, inúmeros efeitos secundários da elevada ingesta protéica que resultam em perda da função renal, podem ser minimizados com menor oferta, bem como adequação da qualidade de proteínas dietéticas.
Outros benefícios da redução da ingesta proteica em doentes renais crônicos não dialíticos são a redução da produção de glicose e melhora da ação insulínica, melhora do perfil lipídico (colesterol), redução da oferta de fosforo (toxina que se acumula em DRC), melhora da acidose metabólica resultando em redução da reabsorção óssea e redução da apoptose (morte) de células renais.
As concentrações de cálcio e fósforo também tem sido associadas com maior risco de progresso da DRC. Em uma metanalise recente, observou se que para cada 1mg/dl de aumento de fosforo, maior era o risco de progressão de insuficiência renal independente de outros fatores de risco. A restrição de fósforo na dieta deve ser adotada sempre que houver elevação dos níveis de fósforo ou quando paratormônio (PTH) elevado. O paciente deve ser orientado a preferir sempre alimentos frescos à sua versão industrializada, pois o fosforo nestes últimos é mais biodisponível, elevando as suas concentrações sanguíneas. Além disso, o fósforo proveniente da ingestão de proteínas de origem vegetal é menos absorvido que o de origem animal.
Outro potencial mecanismo que pode estar associado aos efeitos deletérios do padrão alimentar ocidental em contraste aos benefícios do padrão vegetariano, diz respeito as diferenças em relação a produção endógena de ácidos. Alimentos de padrão ocidental, como carnes, queijos e ovos, são reconhecidos como produtores de ácidos. Por outro lado, frutas, hortaliças e grãos são produtores de álcalis. Isso tem papel relevante já que a elevada ingestão de alimentos produtos de álcalis, pode reduzir os efeitos deletérios da retenção de ácidos que ocorre na DRC, incluindo a progressão da doença.
Por fim , os resultados dos estudos ainda que preliminares apontam para uma provável mudança na forma como a dieta é planejada em pacientes com DRC. Possivelmente, a menor ênfase nos nutrientes isolados, mas priorizando a qualidade da alimentação, empregando, sempre que possível e de forma adaptada, os principais preceitos da alimentação saudável preconizados para população em geral, são a base de um futuro promissor que pode evitar em muitos casos, a evolução para o estagio de doença renal crônica dialitica. Dessa forma, você que já apresenta algum grau de comprometimento renal, esteja atento e coloque em prática desde cedo, as orientações nutricionais a fim de aumentar a sua sobrevida renal, evitando dessa forma os desfechos desfavoráveis a longo prazo associados a doença renal crônica!
Dra. Luanne Fortes
Nefrologista
